109-122

REFLEXÕES SOBRE A CIDADE A PARTIR DE

1 PEDRO

Reflections about the city from 1 Peter

Dr. William Lacy Lane1

RESUMO

Por meio de uma análise teológica de 1Pedro, o artigo reflete sobre a contribuição da carta para o entendimento do papel do cristão na esfera pública e a relevância da mensagem para a missão urbana hoje. Argumenta que não há ruptura ou incompatibilidade entre as responsabilidades civis e sociais e a fé cristã. Pelo contrário, o cristão deve demonstrar sua fé e sua esperança na maneira como age no dia a dia, mesmo que isso resulte em sofrimento.

Palavras-chaves: 1Pedro. Missão Urbana. Responsabilidade Social. Teologia Pública.

ABSTRACT

Through a theological analysis of 1 Peter, the article reflects on the relevance of the epistle for the understanding of the Christian role in society and the relevance of this message for urban missions today. It posits that there is not a break or incompatibility between the social and civil responsibilities and the Christian faith. Rather, the Christian must demonstrate their faith and hope in the way they live daily, even if this may cause suffering.

Keywords: 1Peter. Urban Mission. Social Responsibility. Public Theology.

Introdução

O objetivo desse artigo é analisar a primeira epístola de Pedro na perspectiva da cidade, procurando resgatar a relevância da mensagem de Pedro para a missão urbana e para a responsabilidade do cristão na esfera pública.

A epístola é dirigida a cristãos espalhados em cinco províncias: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, da Ásia Menor. Há quem argumente que os destinatários fossem residentes não das regiões mais populosas do litoral, mas do interior rural.2 Por outro lado, Goppelt defende que 1Pedro é o único escrito do NT que trata de modo sistemático e temático a questão do cristão como estrangeiro na estrutura da sociedade contemporânea.3

As províncias mencionadas provavelmente se referem a locais onde havia comunidades do povo de Deus constituídas principalmente de gentios cristãos. Embora seja difícil situar precisamente as localidades onde se encontravam esses cristãos, a epístola trata de assuntos que dão a entender um contexto urbano dos destinatários. Esses estão sendo discriminados e perseguidos por causa da fé em Cristo.4

1. A perspectiva da carta sobre a cidade

A epístola não trata especificamente de uma cidade, exceto em duas situações: de modo figurado na saudação final, onde o autor se refere à igreja “que se encontra na Babilônia” (5.13), alusão a Roma; e nas citações do AT, no que se refere à centralidade de Sião (Jerusalém), para se referir a Jesus Cristo (2.6).

Se a interpretação de Roma como Babilônia estiver correta, a visão do autor sobre a cidade, onde muito provavelmente ele está localizado, sugere uma crítica ao imperialismo e à opressão vindos de Roma.5 Roma, nos tempos do autor, equivalia à Babilônia nos tempos do AT. De outro modo, Roma era para a igreja o que Babilônia representou para Israel. Isso justifica o modo como esses cristãos foram chamados no início da epístola, “forasteiros da Dispersão”, literalmente, ‘exilados da Diáspora’, uma alusão clara ao exílio do AT. Os cristãos da Ásia, na perspectiva do autor, eram como os israelitas na Babilônia, exilados.

Por outro lado, a breve referência à profecia de Isaías 28.16 sobre a pedra angular em Sião (1Pe 2.6) e a identificação dos cristãos com essa pedra como “pedras que vivem, sois edificados casa espiritual...por intermédio de Jesus Cristo” (2.5) deixa claro que o autor pretende mostrar que esses cristãos exilados na Babilônia (Roma) representam, na verdade, o cumprimento da promessa de Deus sobre Sião. Eles são a nova cidade que Deus está construindo para fazer habitar seu nome. Embora não estejam em Jerusalém, eles são a Jerusalém (Sião) verdadeira.

O que se percebe é que para o autor a cidade não está articulada somente em termos de localidade geográfica. Cidade é um sistema. Roma representa o sistema opressor da Babilônia; por outro lado, Sião representa as promessas de salvação. O povo de Deus vive exilado, mas são a verdadeira Sião onde quer que estejam.

A cidade, então, é subentendida na epístola como um sistema de vida, mais especificamente um sistema de valores e estruturas divergentes dos valores dos cristãos e do reino de Deus.

Como Carriker6 observou, na “história da expansão da igreja, uma de suas táticas foi assumida em relação ao seu envolvimento no sistema e nas instituições da sociedade geral – ou participação ou isolamento.” A epístola de 1Pedro supera esse dilema e, segundo Carriker, possui uma “avaliação coerente da vontade de Deus para com este mundo e assim acrescentam uma perspectiva missionária significante para o testemunho neotestamentário.”

Nesses termos, a carta é interessante para a reflexão sobre a missão urbana e a teologia pública, pois o autor reflete, de um lado, uma visão negativa da cidade e, portanto, fala do povo como “peregrinos e forasteiros” (1.1; 2.11), os sofrimentos do presente (1.6; 3.14) e do mau procedimento (1.18); por outro lado, a visão sobre as autoridades constituídas (2.13-17) e o cumprimento de deveres sociais e de conduta (2.18; 3.16) mostram uma postura de como o cristão na cidade deve viver de modo de modo responsável perante as autoridades e os patrões, inclusive os maus patrões (2.18).7

2. Elementos teológicos e missiológicos

Já se disse que nenhum outro escrito do NT é tão teológico quanto 1Pedro, ‘teológico’ no sentido estrito de ensino a respeito de Deus.8 De fato, um dos pontos altos da teologia de 1Pedro é a constante referência a Deus e sua obra na salvação das pessoas. Há também uma característica bastante trinitariana. Na saudação inicial, Pedro dirige-se aos “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1.2).

Um exame mais atento demonstra que Deus aparece sempre em relação à formação do povo eleito. Deus Pai regenerou pela sua misericórdia (1.3, 17, 21), através de Cristo (1.3, 11, 19; 2.21; 3.18) em santificação pelo Espírito (1.2; 4.14). Mas Deus também é soberano, está acima das autoridades constituídas (2.13-17) e está sobre todas as coisas (4.11).

Dentre as várias recomendações, exortações e ensinamentos, pode-se dizer que há dois enfoques teológicos principais. O primeiro diz respeito à identificação do povo, isto é, quem é o cristão perante Deus e perante a sociedade (1.1-2.10). O segundo enfoque diz respeito ao compromisso do cristão perante a sociedade, em termos de conduta pessoal e em termos de relacionamentos (2.11-4.19).

Quanto ao primeiro aspecto, Pedro usa figuras do AT para descrever e identificar o povo. Embora os destinatários da epístola fossem provavelmente gentios,9 Pedro evoca figuras do povo de Deus no AT. Os cristãos da Ásia são considerados herdeiros das promessas, mas a herança que receberiam seria incorruptível (1.4).

No primeiro capítulo, Pedro usa a linguagem do sacrifício do AT do “despojar” e “se revestir” para identificar o povo com o compromisso de pureza e santidade. Cita inclusive a frase de Levítico “sede santos, porque eu sou santo” (1.16). O povo é chamado de “filhos da obediência” (1.14). Mas a base do procedimento (1.15, 18), da boa conduta do cristão, não está em aderir a uma série de regras morais e éticas. Aqui que é importante notar a compreensão teológica de Pedro sobre o povo. O povo foi escolhido por Deus e regenerado. Ele é continuação do propósito de Deus para seu povo escolhido. O povo regenerado de Deus deve proceder na sociedade hoje por meio de sua conduta e compromisso com Deus.

Talvez a principal ligação que Pedro faz entre a igreja e Israel no AT é a figura usada em 1Pedro 2.1-10. No versículo 9, chama o povo de “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus”, uma direta alusão ao povo da aliança do Sinai (Êx 19.5-6). A igreja é esse povo escolhido de Deus e, ao mesmo tempo que goza de um privilégio de ser nação santa, recebe uma missão de ser reino de sacerdotes para “proclamar as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (2.9).

Nos versículos 2-5, Pedro também resgata figuras do AT relacionadas ao templo. Os cristãos são chamados de “pedras que vivem”, “edificados casa espiritual, para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais”. A igreja é identificada com o templo, o sacrifício e o sacerdócio, três elementos fundamentais relacionados à presença de Deus no AT. Jesus cumpre a função de templo, de sacerdote e de sacrifício. Pedro sugere que essa missão agora é do povo de Deus, a igreja. A igreja cumpre a presença de Deus na terra sendo templo do Espírito Santo, sacerdócio e oferecendo sacrifício vivo a Deus.

Pedro identifica a igreja, os cristãos na Ásia, com o povo de Deus no AT e fundamenta a identidade desse povo na regeneração através de Cristo. Essa regeneração deve ser evidente através do agir (1.22-23). Isso já se configura como um testemunho na sociedade.10

O segundo enfoque teológico diz respeito ao compromisso do cristão com a sociedade. Essa identificação do povo como propriedade exclusiva de Deus, nação santa (= separada), não pode gerar alienação, negação ou desprezo do mundo e da sociedade moderna. Pelo contrário, justamente por ser povo regenerado, escolhido de Deus, a igreja é exortada a um compromisso com a sociedade em termos de procedimento exemplar e boas obras que glorifiquem a Deus (2.12).

É interessante observar certo paradoxo. Os cristãos são chamados de “peregrinos” e “forasteiros” (2.11), o residente temporário que poderia ser expulso da terra, que não tinha direitos de cidadão e provavelmente não se importava com os deveres do cidadão legítimo. Porém, os cristãos são também chamados a se sujeitarem aos deveres de cidadão.11 Sobre a maneira como Pedro retratou os cristãos, Comblin diz que “os cristãos não devem formar guetos [...] Pertencem à cidade pagã por nascimento e não são indiferentes ao seu progresso”, mas também “sua missão os envia à cidade pagã”.12

As instruções de 2.11–4.19 giram em torno de compromisso com o bom procedimento não só moral, mas civil (2.12; 3.1, 2, 16). Pedro fala de se sujeitar a toda instituição humana (2.13), o servo ao senhor, tanto o bom quanto o perverso (2.18) e a mulher ao seu marido não crente (3.1-2). O enfoque é que o cristão, mesmo sendo peregrino neste mundo, tem o dever da submissão às autoridades para que, por meio desse procedimento, Deus seja glorificado.

Outro aspecto teológico de importância em Pedro é sua visão da salvação em termos escatológicos. Pedro está constantemente se referindo ao “antes”, como tempo da ignorância (1.14), e o “último tempo”, como momento da revelação da salvação (1.5). Juan Stam nos ajuda a entender essa dimensão da fé em Pedro, argumentando que a visão escatológica é inseparável da fé e, consequentemente, da missão.13 Para Stam, em Pedro a fé e a esperança se confundem, são praticamente a mesma coisa.

Stam destaca a importância de 1Pedro 3.15 como “dimensão evangelizadora e missionária da escatologia” (p. 17). O cristão deve estar pronto para dar razão da esperança (ou fé) que tem a todo aquele que perguntar.

Segundo Stam:14

nossa esperança deve transformar-se em ‘praticantes do bem’ e ativistas da justiça. Nossa resposta existencial e ética à boa nova do ‘reino de Deus e sua justiça’ (Mt 6.33) é comprometer-nos com a maior justiça possível aqui e agora.

Nesses termos, as alusões ao fim dos tempos ou últimos tempos e o caráter passageiro da vida atual em Pedro (1.5, 7, 8-9, 13, 20; 4.2, 7) procuram despertar o cristão para o fato de que ele tem uma missão neste mundo. O cristão não é deste mundo, mas está aqui para testemunhar de Cristo.

Os sofrimentos são vistos como passageiros, mas, acima de tudo, são vistos como identificação com os sofrimentos de Cristo (4.13). O sofrimento por causa da fé também é demonstração de que o Espírito reside em nós (4.14).

É neste contexto que o pastoreio se dá. O último capítulo da epístola começa com recomendação aos presbíteros para pastorearem o rebanho de Deus. Esses presbíteros são “testemunhas dos sofrimentos de Cristo” e “coparticipantes da glória que há de ser revelada” (5.1).

2.1 Problemas abordados pelo autor

Um dos problemas fundamentais dos destinatários da epístola é que eles viviam sob pressão ou perseguição por causa da fé. Provavelmente, não se tratava de perseguição oficial ou tentativa de expulsão dos cidadãos das províncias mencionadas. Os sofrimentos se davam por acusações indevidas e injustiças de cidadãos incomodados com os cristãos. Os cristãos eram ridicularizados pelo novo padrão de vida e por isso eram perseguidos.15 Principalmente os escravos, as mulheres e outros marginalizados, em situação social inferior e desprivilegiada, quando se convertiam sofriam pressão e até perseguição de seus superiores.

Diante dessa situação, muitos cristãos estavam se desanimando e perdendo de vista a razão de sua fé. Estavam sofrendo e ameaçando abandonar a fé. O desafio de Pedro é tratar de despertar ou reviver a fé e a esperança dos cristãos da Ásia para que continuassem firmes, aguardando a salvação que seria manifesta.

Por outro lado, alguns se diziam cristãos e até sofriam perseguição por causa disso, mas não viviam como cristãos, honrando o nome de Cristo (2.11-12, 16-17). Pedro apela para que, como salvos, vivessem glorificando a Deus.

2.2 Soluções propostas

Pedro procura exortar os cristãos principalmente a compreender a sua fé em uma perspectiva do plano de Deus para seu povo e em uma compreensão do sofrimento como parte da vida cristã.

O autor procura deixar claro que a vida cristã representa uma ruptura com a anterior. Uma vez alcançados pela graça de Deus, devemos abandonar as “paixões que tínheis anteriormente” (1Pe 1.14; 4.1-3). Daí as exortações do autor sobre viver em temor e santidade (1.15, 17, 22; 2.11; 3.15; 4.7).

O tempo presente, por outro lado, é um tempo transitório. Além de o autor usar a figura do peregrino em terra estranha, ele fala da salvação em termos de manifestação do cumprimento das promessas feitas aos profetas (1.10-12) e em termos de algo ainda a se manifestar plenamente (1.4-9). A salvação está para ser herdada. O tempo presente é o momento de aguardar a “salvação preparada para revelar-se no último tempo” (1.5). Durante esse tempo é possível que o cristão “por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações” (1.6). Essas provações são testes para que nossa fé seja confirmada (1.7).

Portanto, o autor procura responder a questão do sofrimento e da perseguição resgatando um sentido do plano de Deus na salvação. Deus está executando seu plano. As dificuldades que temos hoje fazem parte do fortalecimento de nossa fé. É interessante notar que ao mesmo tempo que Pedro deixa claro que há uma ruptura entre o hoje e o viver ‘anterior’ e uma expectativa com o que há de ‘ser revelado’, essa transitoriedade do presente não leva a uma alienação ou a um viver irresponsável. É impressionante como o autor destaca ao mesmo tempo a transitoriedade dos sofrimentos de hoje e o valor disso para o fortalecimento da fé.

Outra maneira de o autor responder aos problemas é a valorização da salvação. Pedro menciona várias vezes o valor da salvação como “herança incorruptível, sem mácula, imarcescível” (1.4), “mais preciosa do que ouro perecível” (1.7), “cousas que anjos anelam perscrutar” (1.12), “precioso sangue” (1.19) e “semente...incorruptível” (1.23). Aliado a isso, o autor sugere que o plano de Deus está se cumprindo na vida desses cristãos. As revelações aos profetas e a própria manifestação de Cristo teve como objetivo “vós outros” (1.10, 12, 20).

Para o cristão daquela época, como o de hoje, enfrentar os desafios e problemas, especialmente as perseguições ou preconceitos por causa da fé, é preciso que ele tenha forte convicção de sua salvação. Não foi por pouca coisa que Cristo morreu. A vida cristã não envolve simplesmente adotar um novo estilo de vida ou filosofia. Existe um valor inestimável ao que Cristo fez por nós. Pedro valoriza de tal modo o sentido da salvação para que o cristão entenda que os sofrimentos não se comparam à glória aguardada aos filhos (cf. Rm 8.18).

Mas ainda outra maneira de Pedro responder a esses desafios é levar os cristãos a entenderem que sua fé, amor e graça são demonstrados no viver cotidiano. Pedro não ensina uma série de regras morais ou ‘espirituais’ desvinculadas do cotidiano. Não há uma ruptura entre as responsabilidades civis e sociais e a fé cristã. Existe uma ruptura com o viver anterior. Mas o cristão deve demonstrar sua fé e sua esperança na maneira como age no dia a dia. Seu viver precisa ser exemplar. Mesmo que isso resulte em sofrimento, mas é melhor sofrer assim do que como malfeitor.

Para que o crente possa perseverar diante do sofrimento, Pedro insiste que, quando sofremos, compartilhamos dos sofrimentos de Cristo. Somos coparticipantes dos sofrimentos de Cristo (1Pe 4.13; 5.1).

3. A contribuição para a missão urbana

Essa epístola pode não parecer um texto muito missionário. Porém, acho que trata da realidade missionária urbana. O ensinamento da carta é bastante pertinente para o cristão urbano de hoje. Há semelhanças ou pontos de identificação entre os primeiros leitores e o leitor de hoje.

O grande desafio da missão urbana, no meu entender, é o cristão não atrapalhar a proclamação do Evangelho. No contexto urbano de hoje onde os cristãos estão tão inseridos na sociedade, é possível que nem sempre os cristãos tenham um discernimento acurado dos valores distintos do cristão ou, por temer ridicularizações e preconceitos, o cristão se adapta aos valores da sociedade moderna. Consequentemente, as práticas, atitudes e comportamentos dos cristãos são moldados pelos valores contemporâneos, inclusive os vícios e distorções da ética e da moral, chegando-se a extremos de um cristão ser ‘pior’ que um não-cristão. Isso, sem dúvida, atrapalha a proclamação do Evangelho.

A carta de Pedro nos desperta para um compromisso com nosso Deus, como povo santo, e um viver ousado de testemunho perante a sociedade. É verdade que isso pode provocar perseguição. Quando isso acontece, é sinal da presença de Deus em nós (4.14, 16).16

Outro ponto importante e relevante da carta para a missão urbana é a compreensão da dimensão histórica e sociológica da fé. Pedro procura mostrar que o cristão deve romper com seu passado das paixões (2.10, 25) e se fortalecer na esperança da salvação que está para ser revelada (1.5; 4.7; 5.10). O tempo presente é transitório é um viver como peregrino e tempo de demonstrar o valor de nossa fé (1.6-7). A nossa fé é testada como metal no fogo para que, depois de ser “apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” (1.7).

De um lado, essa dimensão nos ajuda a compreender a fé cristã num processo que ainda não se completou. Cristo há de se revelar. Deus ainda não completou sua obra. Por outro lado, essa dimensão não deve levar o cristão a uma alienação ou escapismo; pelo contrário, deve nos levar a um engajamento como demonstração da nossa fé e esperança.

O cristão urbano moderno muitas vezes perde de vista essa dimensão. A fé ou religião é vista como bem de consumo.17 O culto, as programações da igreja e as atividades religiosas são vistas como forma de entreter o cristão, que vive no estresse de cada dia e precisa de alento ou um recarregar das baterias. A igreja, às vezes, resume-se a isso. Não que isso não seja importante. De fato, a igreja precisa ser um oásis em um deserto, precisa ter vida em um mundo tão desintegrador. Mas a igreja precisa capacitar o cristão com uma visão e compromisso transformador na sociedade começando pelo seu agir, pelo seu procedimento.

A caracterização de Pedro do povo como peregrino e forasteiro pode parecer, para alguns, contrariar essa dimensão histórica e de compromisso com o presente. De fato, há um paradoxo aí. Mas esse é outro aspecto relevante da carta para a missão urbana hoje.18 Precisamos entender que, como forasteiros, não temos intenção de permanência definitiva. Isso deve refletir no nosso estilo de vida. A igreja, ou o cristão, não deveria ser tão materialista. Infelizmente, para muitos cristãos, ser um cristão verdadeiro e fiel significa gozar de todas as bênçãos materiais da vida moderna; em outras palavras, é ser um materialista bem-sucedido. Essa postura contraria a caracterização de Pedro do cristão como residente passageiro. Nosso senso de segurança e tranquilidade não está nas posses, mas na nossa fé, que ninguém pode tirar de nós. A igreja urbana moderna precisa ter esse reconhecimento.

Como Stam destacou bem, 1Pedro exige do cristão estar preparado para dar razão da esperança que tem (3.15). Esse elemento é fundamental na missão urbana. A igreja testemunha e proclama a mensagem do Evangelho através de cristãos vivendo e agindo na sociedade moderna, encontrando-se a cada dia como pessoas desesperadas e perdidas.

Nesse tempo moderno as coisas mudam com rapidez, são transitórias e superficiais. As pessoas não procuram relacionamentos duradouros, estáveis e profundos. A fé se torna algo materialista. O objetivo da fé muitas vezes é a satisfação do bem-estar espiritual, emocional e material do cristão. Cristãos entram em profunda crise quando passam por dor ou sofrimento. Diante disso, a carta de 1Pedro ajudar compreender ao mesmo tempo essa transitoriedade do hoje e o profundo significado disso no plano de Deus. Não só isso, também destaca o profundo valor da salvação. Existe algo que vale a pena tudo o mais na vida, a fé e esperança em Cristo.

Por isso, a carta fortalece o cristão urbano a enfrentar a vida. É uma mensagem clara de como a igreja pode viver hoje numa sociedade urbana. Mas ao mesmo tempo tem uma mensagem de esperança para o cidadão sem Deus, alguém que também está perdido na cidade. Pessoas que estão atrás de prazeres, status, poder se cansam disso, pois essas coisas não saciam. Pedro ensina a igreja a dar explicação da esperança que temos.

Ainda outro aspecto relevante da carta é a construção da noção de que o cristão pertence a um povo e que esse povo tem uma missão no mundo. Esse povo é casa espiritual, para oferecer sacrifício vivo e ser sacerdote (1Pe 2.1-10). A carta ressalta tanto a presença de Deus como a função sacerdotal e sacrificial do povo na vida moderna. Também ajuda o cristão a entender que a fé não se resume em adotar uma série de regras e preceitos morais ou éticos, mas significa se identificar com um povo, pertencer a uma comunidade alternativa ao vazio da sociedade. Ser povo peregrino na cidade hoje é viver e conviver na sociedade moderna, mas não pertencer a ela, é ter uma identidade que traz ao indivíduo contemporâneo um senso de sentido na vida. A vida tem sentido quando entendida a partir do plano de Deus e da identificação com o povo de Deus.

Por fim, uma contribuição muito positiva de Pedro para a missão hoje é a compreensão do sofrimento na vida do cristão. Somos muito influenciados por teologias positivistas, que enxergam o sofrimento como maldição ou castigo de Deus aos infiéis. Além disso, a sociedade moderna prega o prazer, o bem-estar, a ausência de dor e infortúnios. Nossa mente cristã moderna também é influenciada por esses pensamentos. Acabamos pensando que a vida cristã bem-sucedida elimina as dificuldades e sofrimentos. É bem verdade que no Brasil de hoje dificilmente sofremos como os cristãos na época de Pedro. Certamente, o sofrimento de hoje raramente está relacionado com a perseguição por causa da fé. O sofrimento de hoje está mais relacionado às questões da vida (doença, morte, desastres) ou questões da contemporaneidade (assaltos, desemprego, derrota financeira). É preciso que o cristão entenda isso como um testemunho do sofrimento de Cristo e seja fortalecido na sua fé.

Não só o cristão, mas muitos não cristãos que também sofrem as ameaças da vida moderna e se desesperam quando descobrem que a vida não é só prazer e alegria; a igreja precisa levar uma palavra de esperança e de graça a esses cidadãos distantes de Deus.

ConSIDERAÇÕES FINAIS

A primeira carta de Pedro traz importante reflexão sobre a missão urbana no sentido de uma definição clara sobre a identidade do cristão como membro da comunidade do reino de Deus e no mundo contemporâneo. Além disso, reflete de modo claro a tensão da relação do cristão com a sociedade que varia entre submissão, passividade, isolamento, e engajamento crítico, colaboração e atuação na sociedade. O foco na santidade e pureza leva ao isolamento, porém a ênfase na identidade do cristão como peregrino ressalta a responsabilidade com a sociedade.19

Uma releitura de 1Pedro a partir da sociedade moderna e dos problemas da vida urbana nos possibilita responder aos anseios, dilemas, crises e problemas da vida moderna urbana. Essa releitura serve também como crítica à vida urbana na perspectiva do povo de Deus.

1Pedro contribui para a discussão da identidade do povo de Deus, a sua relação com a sociedade e a esperança no retorno de Cristo. Nem a origem ou identidade do povo nem a esperança podem tornar a comunidade alheia e alienada às responsabilidades sociais. Por outro lado, o cristão não só se identifica como povo de Deus, mas segue as crenças e valores divinos, ainda que isso lhe cause perseguição na atualidade. A carta, portanto, contribui para o debate sobre o lugar e responsabilidade do cristão na esfera pública.

REFERÊNCIAS

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CARRIKER, C. T. Missão Integral: uma teologia bíblica. São Paulo: Sepal, 1992.

COMBLIN, J. Teologia da Cidade: Teologia Hoje. São Paulo: Paulinas, 1991.

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PERKINS, P. First and Second Peter, James, and Jude. Interpretation. Louisville: John Knox Press, 1995.

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1 Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia, EST. Professor da Faculdade Teológica Sul Americana. Email: blane@ftsa.edu.br.

2 ELLIOTT, apud PERKINS, P. First and Second Peter, James, and Jude. Interpretation. Louisville: John Knox Press, 1995, p. 14.

3 GOPPELT apud MARTIN, R. P. First Epistle of Peter. In: The International Standard Bible Encyclopedia. G. W. Bromiley (ed.). Grand Rapids: Eerdmans, 1992, p. 809.

4 cf. CARRIKER, C. T. Missão Integral: uma teologia bíblica. São Paulo: Sepal, 1992, p. 240.

5 Martin Williams é da opinião de que a perseguição sofrida pelos cristãos da carta de Pedro era muito mais de linguagem do que física, mais social do que estatal. Veja, WILLIAMS, Martin. The Doctrine of Salvation in the First Letter of Peter. Cambridge University Press, 2011, p. 7.

6 CARRIKER, 1992, p. 240.

7 GREEN, Joel B. 1 Peter. Eerdmans, 2007, p. 3-4.

8 MARTIN, 1992, p. 809.

9 Há muito debate entre os estudiosos sobre essa questão. Uma síntese dessa discussão pode ser encontrada em PERKINS (1995, pp. 12-15) e MARTIN (1992, p. 809).

10 Cf. CARRIKER, p. 242-243.

11 Cf. MARTIN, p. 809.

12 COMBLIN, J. Teologia da Cidade: Teologia Hoje. São Paulo: Paulinas, 1991, p. 54.

13 STAM, J. Profecia Bíblica e Missão da Igreja. São Leopoldo: Sinodal, 2003, p. 17.

14 STAM, 2003, p. 16.

15 PERKINS, p. 16-17; CARRIKER, p. 241.

16 Cf. SENIOR, Donald; HARRINGTON, Daniel J. 1 Peter. Liturgical Press, 2003, p. 15.

17 BARRO, J. H. De Cidade em Cidade. Londrina: Descoberta, 2006, p. 223.

18 Cf. COMBLIN, 1991, p. 89. Veja ainda a discussão de David Horrell sobre o modo de superar esse dilemma na interpretação de 1Pedro: HORRELL, David G. Becoming Christian: Essays on 1 Peter and the Making of Christian Identity. Bloomsbury, 2013, p. 212ss.

19 GREEN, 2007, p. 2.

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